A Lagoa Glaciar

Fotografia, paisagem e aventura

Nas Montanhas do Parque Natural da Serra da Estrela

 

Relatos de uma viagem fotográfica ao coração da montanha durante o Inverno, nela pernoitando e trilhando caminho em direcção à luz da madrugada na lagoa do Peixão.

 

“Chegámos à caldeira da lagoa. Esta caldeira é muito semelhante à da lagoa escura; mas a paisagem da ladeira, que desceramos, e dos fraguedos superiores, que a circundam, é muito mais variada e formosa. (…) Na penedia do lado nordéste, e que é toda revestida de zimbros e urzedos, entalha-se uma escadaria natural, muito íngreme e estreita, mas de ascensão segura. É essa a única vereda praticável, para se sair da lagoa do Peixão em direcção aos Barros Vermelhos.”

Emygdio Navarro, “Quatro dias na Serra da Estrela”, 1884

Lagoa do Peixão - Serra da Estrela

Além dos fotógrafos envolvidos e algumas pessoas ligadas a actividades de montanha, eram poucos os que conheciam a origem desta aventura, nem os amigos mais chegados sabiam desta vontade. Desde há dois anos que este “projecto” existia em mente dos três fotógrafos de Natureza portugueses, Nuno Luís, Hélio Cristóvão e Paulo Lopes, que no Solstício de Verão de 2009, no decorrer do pico de cores de Primavera serrana,  fotografaram a Lagoa do Peixão à luz do nascer-do-Sol, para tal pernoitando na montanha apenas com esse propósito. E desde essa data, que o regresso à lagoa havia sido idealizado; mas um regresso sob a luz do Inverno, onde se imaginava a paisagem do covão e os picos da montanha cobertos de neve… como que uma ideia persistente, este projecto nunca nos abandonou, até que dois anos depois, as condições se “proporcionaram”. Então, a pura beleza e magia da Natureza da emblemática lagoa Glaciar do Peixão iria em breve abandonar o nosso imaginário na data em que Hélio Cristóvão e Paulo Lopes se aventuram na montanha para de lá trazer a fotografia ao nascer do Sol em pleno Inverno.

 

“12h de 2 de Março de 2011, viagem de partida da cidade rumo à montanha”

 

5 dias antes cerca das 5h da madrugada na Serra da Estrela, eu dava início à ascensão da montanha pelo trilho junto ao Rio Zêzere em direcção ao Cântaro Gordo, e à lagoa no seu sopé, para assistir e fotografar à magia do nascer-do-Sol que viria a acontecer e a iluminar os picos de montanha (Um obrigado ao Pedro Santos pela disponibilidade e força de vontade, que ao seu modo fez uma foto no vale selvagem). As condições do trilho pela madrugada revelaram-se numa progressão muito difícil, nas altitudes mais baixas com finas camadas de neve entre arbustos e rocha, onde facilmente se enterrava nos buracos cavados pela caminhada, ora havia o gelo formado na noite tornando o piso escorregadio e perigoso em cada passo. Mas, excluindo a pernoita, era a única forma de obter a fotografia que pretendia. E portanto avancei. Apenas 6 horas e 30 minutos depois estava de regresso ao ponto de partida… exausto, mas “realizado” com a concretização do objectivo.

Experimentado estas condições, e com o intuito do regresso à Lagoa do Peixão, conclui que dado o relevo, terreno acidentado e inclinações acentuadas, seria aparentemente impossível descer o trilho gelado pela noite (num futuro que era próximo, havia de constatar in situ esta notação); se fazê-lo de madrugada estava excluído, seria necessário pernoitar na montanha, e com a relativa “urgência” dadas as condições meteorológicas – Havia que aproveitar a neve recente e os dias de “céu limpo” ou pouco nublado (segundo previsões), em que existia mais probabilidade de ocorrência de luz a incidir nas montanhas ao nascer e pôr do Sol. Estava traçado o destino. Eu e o Paulo Lopes seguimos em direcção à Lagoa durante o entardecer, com os quilos de equipamento fotográfico, tripés, mochilas, lanternas, sacos cama e tendas, alguma comida para cozinhar e 1,5L de água.

Serra da Estrela montanha selvagem

Serra da Estrela montanha selvagem

 

“16h e temperatura de -3ºC. A descida do trilho de montanha”

 

“(…) como tudo aqui symboliza iniciação da vida do céu. Aqui os largos horisontes, os pontos de vista elevados, as seremidades magestosas, a água e o ar puríssimos, a ausência da lama e das podridões […] subindo intrepidamente às montanhas onde aliás a neve tem scintillações e abysmos.”

Deixando para trás todos os confortos e cedendo os instintos ao encontro da aventura, inicia-se caminhada na serra gelada. Pela altitude dos 1850 mt. e percorridos já os primeiros 400 metros para além da estrada entre Torre e Lagoa Comprida, chegamos aos limites dos enormes contrafortes de granito que formam as ravinas mais acentuadas a montante das linhas-de-água afluentes do Vale da Candeeira. O trilho possível desenvolve-se ao longo de um covão, ora pela linha-de-água por vezes quase no seu leito, ora a “meia encosta” junto a paredes rochosas ou pelos topos dos respeitáveis “boulders” e lages de granito.

Avistam-se algumas mariolas, as que não estão cobertas entre o manto de neve, e em vários pontos do percurso, são da maior importância, pois conduzem pelo trilho “certo”.

6787 Serra da Estrela montanha granito e neve

O piso era inevitavelmente muito escorregadio devido à película de gelo mantida mesmo durante o dia nas vertentes viradas mais a Norte, que não recebem muita luz do Sol – apesar disso foi um dia de muito frio – mesmo a neve mais exposta ao Sol durante o dia era de uma progressão difícil, não tinha textura, atrito. Deslizar sobre penedias mais íngremes é por vezes a única solução de descida ao ponto seguinte, a inclinação mais acentuada do terreno em zonas cobertas de neve não deixa alternativa senão deslizar agarrando arbustos para travão, ou rochas, que por vezes contornamos pelos “valados” fundos que se formam entre a neve e a rocha.

Num dos deslizamentos mais íngremes e longos onde adquiri grande velocidade, a violência de me prender a um arbusto foi tal que rasguei um dos dois pares de calças em 30cm, continuando assim a jornada…

Aproximadamente com 1200 metros de percurso volvidos, o trilho estabelece-se num esporão da montanha, uma certa área de planalto à cota 1700mt. onde bifurcam duas linhas-de-água. Avista-se uma mariola, mas a partir deste local, o terreno ganha ainda mais dificuldade. Descemos 150 metros de desnível, não há mais mariolas visíveis doravante; avançamos por granito e gelo pela esquerda da ravina com cumeada a Norte da Lagoa do Peixão. Ainda não sabíamos que seria o nosso maior erro do percurso, e ainda menos sabíamos que se não fosse tal erro, pelo trilho “normal” não seria possível sequer a alcançar a lagoa…

O entardecer faz-se rápido entre o céu nublado na plena montanha, quando alcançamos um ponto onde não é possível avançar mais. Estávamos a meia escarpa entre uma linha-de-água a Norte, onde se avista o cume do Piornal e a magestosa encosta do Covão da Candeeira. Mas não tínhamos chegado à lagoa, e a luz começara a diminuir. Ponderamos acampar no local, tentar regressar, ou explorar a área… O Paulo avança para Sudeste, atravessando transversalmente a montanha pela cumeada, e é nesta investida que se descobre que a lagoa do Peixão estava 40 metros abaixo de nós.

 

“Do anoitecer à madrugada, temperatura de -15ºC”

 

“A meia altura d’essa escadaria há um como que terraço, uma rocha espalmada, d’onde se abrange toda a perspectiva da lagôa e suas cercanias: a alguma distância o bojo apopletico do Cantaro Gordo; ao lado direito a ladeira de verde esmeralda e glauco, com as suas caprichosas sinuosidades e filetes de agua; ao lado esquerdo, o valle da Candieira, para onde a lagôa despeja o excedente das suas aguas, e que constitue o ramo norte das nascentes do Zezere. É de uma belleza de paisagem e colorido verdadeiramente magnificente!”

Serra da Estrela Cantaro Gordo

Observando a vereda com a Lagoa congelada na sua base e já ao anoitecer, planeamos descer às margens da lagoa na madrugada uma hora e meia antes do nascer-do-Sol. Entretanto, montamos acampamento num socalco plano com uma vista priviligiada para a montanha… e as horas seguintes levam-nos à segunda viagem, atravessando o gelo da noite, com fogueira e culinária. A 1000 mt. de altitude abaixo de nós, em Manteigas estavam previstos -10ºC, no acampamento, estima-se que fizessem -15ºC. As tendas cobrem-se rapidamente de gelo, e apenas o calor da fogueira aquece o espaço e nos serve os propósitos de culinária e obtenção de água para beber…

acampamento na montanha Lagoa do Peixão Inverno

fogueira no granito camping selvagem

aquecer na fogueira camping selvagem

Helio Cristovao aquecer na fogueira camping selvagem

lume fogueira campismo selvagem

Aquecer comida na fogueira à noite na montanha

caçarola ferver neve água potável

Aquecer na fogueira noite Inverno na montanha

colher neve na caçarola para ferver
“A Lagoa Glaciar”

 

São 5h30m da manhã. O frio tinha sido suportado entre vagas de vento mais forte e a tenda gelada nas últimas horas. Durante a noite, nuvens e nevoeiro a certa altitude tapavam a visibilidade das estrelas, por vezes noite escura, noutros momentos brechas de céu estrelado; o mais preocupante seriam as condições em que ocorreria o nascer-do-Sol. Nada é garantido na fotografia de paisagem natural, dependendo do estado do tempo na madrugada, todo o percurso de ali chegar e a pernoita podia tanto resultar em vão no nosso objectivo principal, como possibilitar a realização de fotografias conforme desejado. Segundo as previsões haveria céu limpo, e embora os fortes nublados da noite nos levasse a hesitar, cerca das 4h30m da noite, acordo e observo o céu. Estrelas. Céu limpo. Tento dormir mais uma hora em mais animada esperança.

Acampamento nocturno Lagoa Serra da Estrela

Últimos preparativos, e chega o momento de deixar o acampamento e trilhar pelo escarpado da montanha nos 40 metros de desnível até à cota da lagoa. Entre rochas coseguimos encontrar desníveis aceitáveis, e com a percepção atenta ainda sob luz nocturna, alcançamos as margens.

Lagoa congelada do Peixão na madrugada de Inverno

A beleza da lagoa congelada e toda a mística deste covão selvagem oferece-se perante nós antes do nascer-do-Sol, numa paisagem de gelo e silêncio, cercada pelos picos de montanha que minutos mais tarde receberia a luz do lado Nascente. Formaram-se nuvens baixas, neblinas que atravessavam rápido, e todos os segundos a partir de agora contam para o sucesso da fotografia. Estudam-se enquadramentos “ao milímetro”, a expectativa era elevada, não estivéssemos perante autêntica jornada de aventura, lembrando as dificuldades passadas para estar ali presente naquele momento.

Toda a magia da luz estava para ocorrer nos instantes seguintes, e pelas 7h da manhã a montanha começa a brilhar à medida que o Sol se ergue. Durante 10 minutos a Natureza brindou-nos com espectaculares visões da lagoa.

Lagoa Mágica nascer do Sol na Lagoa do Peixão em gelo na madrugada de Inverno

“(…) porque o adjectivo herminio ou hermenho já de si quer dizer bravo, áspero, selvagem; e d´ahi vem chamar-se à cordilheira da Serra da Estrella os montes hermínios, como quem diz os montes bravios por excelência. […] Ravinas precipitosas, covões soturnos, penedias cahoticas, môrros giganteos, fantasias várias de uma creação aspérrima, que se acumulam, em tropel desordenado, ali teem também essas notas de contrastes delicados, com que a natureza vae dos bramidos do leão […] ao dolente ciciar da brisa.”

 

Parece que se vai formar nevoeiro, é altura de regressar ao acampamento, e seguir rumo à civilização. Durante a manhã, observamos a vereda de subida por onde passa o trilho de acesso à lagoa vindo de montante. Verificamos que é aparentemente impossível fazer o trilho, que se encontra com enorme camada de neve a inclinação muito acentuada.

Geleira Lagoa do Peixão montanha lagoa Glaciar

Cântaro Gordo Lagoa do Peixão

Levantar Tenda de manhã Inverno Serra da Estrela

“Subida da Montanha, o regresso”

 

Seguimos pela cumeada dos montes de granito até reencontrar o ponto de bifurcação das linhas-de-água onde passa o trilho. Subimos o vale. Em certa altura visitamos uma cascata e atestamos a garrafa com água tão fria como pura.

Estava uma manhã amena durante o regresso; recordo-a pela experiência, pela ligação à Serra, pelo silêncio do vale circundado pelos gigantes contrafortes de granito, pelo esforço esgotante de caminhar nestas condições, mas essencialemte pelo que não se consegue explicar. Ocasionalmente fotografamos.

Zimbro no granito detalhe Natureza Serra da Estrela

Boulders Granito encostas de neve Serra da Estrela

Subida de montanha encosta de neve

Fotografia de Inverno na Serra da Estrela subida de encosta de neve

Auto-retrato Paulo Lopes e Hélio Cristóvão Inverno Camping montanha

“A manhã estava esplêndida mas o ar vivissimo. Na frescura d’aquella madrugada, denunciava-se perfeitamente […] a Serra da Estrella […] ligada ao céu por grossos rôlos de nimbos.”


11h30, tinhamos chegado à estrada entre a Torre e Lagoa Comprida.

 

 

Texto por Hélio Cristóvão

Citações: Emygdio Navarro, “Quatro dias na Serra da Estrela”, 1884

Fotografias por Hélio Cristóvão e Paulo A. Lopes

©2011 direitos reservados aos autores

 

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2 comments

  1. Olá.
    Gostaria se possivel me enviasse o mapa com os vossos percursos e lugares de pernoita.
    Já tenho passado bastante mal com o facto da gnr aparecer sempre a chatear e gostaria de faze-lo de forma discreta e não ser “apanhada”.
    É muito triste que em Portugal não se possa acampar a vontade como na Noruega e Suécia, um grande desgosto meu pois a natureza ( e eu amo a natureza invernal) é para aproveitar. Viver. Ser Feliz!
    Tenho alguma experiencia em montanha, cursos, estive varias vezes nos Alpes e Pirineus e já vivi na Noruega onde fiz varias caminhadas inclusive sozinha (outras vezes com outros montanhistas) gostaria se possivel me enviassem o mapa do percurso e pernoitas (principalmente a Lagoa do peixão) pois estou a pensar fazer em breve e queria fazê-lo de uma forma a quem não fosse incomodada pela guarda ou afins. Eu respeito a natureza e a vida é para viver! o meumail: artiknepal@hotmail.com
    – com os maiores cumprimentos!
    Maria B.

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