Cabo da Roca. Rio Touro

Foi em 2007 que estabeleci um projecto de fotografia para o Cabo da Roca. A ambição é conhecer toda a costa do Guincho à Adraga minuciosamente, desvendando cada enseada e explorando os muitos motivos fotográficos de forma inédita e persistente – A paisagem está sempre a mudar, quer com luz ao longo do ano, vegetação, vida existente na área costeira e ciclo de marés. Organizei toda a informação geográfica de que dispunha, elaborei cartas baseadas na cartografia militar e plantas de cadastro das campanhas de 1940-1950. E parti à descoberta.

Ainda nem tudo está desvendado. No dia 7 de Março, pela cumeada a Norte do Rio Touro, desci com o Paulo Lopes à enseada onde o Rio se despeja no mar. Espero lá voltar no Outono, todo o leito é densamente preenchido por árvores caducas, o que deve transformar a paisagem para nos revelar um cenário de muita beleza natural.

O trilho é por vezes imperceptível, atravessa-se mata rasteira pelas encostas íngremes e com os maiores desníveis entre os montes deste litoral. Há uma mariola que se distingue ao longe para acertar no trilho.

A enseada revela-se um cenário de cor contrastada, líquenes fluorescentes no granito róseo, uma arriba escura e alta a Sul, o Chorão (Carpobrotus edulis) preenche rochas ásperas ainda muito acima do mar. Há ilhéus rochosos ao largo da enseada, que se revestem de vegetação no topo, e são preferidos locais das colónias de gaivotas (Larus) e corvos-marinhos-de-crista (Phalacrocorax aristotelispresentes). As vagas de ondas de maré alta tombam contra as falésias enquanto a água do Rio Touro serpenteia numa pequena cascata entre uma fenda esculpida pela erosão do curso do rio. Um pedaço de mundo ainda selvagem.

Fotografei sob um céu dramático. Estou uma hora nuns escassos metros quadrados à procura de enquadramento, e é a falésia a Sul que cativa a minha atenção.

O percurso pelo trilho da descida iniciou-se à tarde, mas o Pôr-do-Sol desapontou. A pequena enseada do Rio Touro não é propriamente um local “amigável” para fotografar um Pôr-do-Sol quando se pretende regressar a uma hora de caminho sem luz da Lua ou lanterna a funcionar. A subida é exigente, a luz já nocturna e a chuva estava para breve. Em certos pontos não se distinguem os trilhos.

Parei a meio caminho para fazer uma fotografia, as nuvens rápidas a Sul eram vermelhas iluminadas pelas luzes da noite nas povoações.

Leave a comment

Your email address will not be published. Required fields are marked *